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Nova fronteira da desigualdade educacional preocupa especialistas

  • 1 de jun.
  • 5 min de leitura

Organismos internacionais identificam crescente diferença entre instituições capazes e incapazes de implementar inteligência artificial de forma estratégica

Sala de aula vazia com carteiras organizadas em fileiras. A imagem ilustra os desafios enfrentados pelos sistemas educacionais diante das transformações provocadas pela inteligência artificial e pela necessidade de desenvolver capacidades institucionais para sua implementação.
A rápida incorporação da inteligência artificial à educação está deslocando o debate sobre desigualdade: além da infraestrutura e do acesso, especialistas apontam que a capacidade institucional de governar novas tecnologias pode se tornar um fator decisivo para o futuro dos sistemas de ensino.

Durante décadas, o debate sobre desigualdade educacional esteve associado à falta de acesso. A preocupação de governos, organismos internacionais e redes de ensino concentrava-se em ampliar conectividade, distribuir equipamentos e garantir infraestrutura tecnológica mínima para escolas e universidades. A rápida expansão da inteligência artificial na educação, entretanto, está alterando esse paradigma.


Relatórios recentes da UNESCO, do Banco Mundial e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que uma nova forma de desigualdade começa a emergir nos sistemas educacionais. Desta vez, o problema não está necessariamente no acesso à tecnologia, mas na capacidade institucional de utilizá-la de maneira estratégica, ética e eficiente.


Em outras palavras, possuir ferramentas de inteligência artificial pode deixar de ser o principal diferencial. O que passa a importar é a capacidade de governá-las.

Segundo a UNESCO, a adoção de sistemas de IA exige novas competências para professores, gestores e formuladores de políticas públicas. A organização publicou, em 2024, o AI Competency Framework for Teachers, documento que estabelece competências específicas para que educadores possam utilizar a tecnologia de forma segura e alinhada aos objetivos pedagógicos.


Para o professor Gilberto Lacerda, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em inovação educacional, a mudança representa uma ruptura importante na forma como o setor costuma enxergar a transformação digital.


“Durante muitos anos discutimos desigualdade educacional em termos de acesso. A inteligência artificial desloca esse debate para a capacidade institucional de utilizar a tecnologia com intencionalidade pedagógica e critérios de governança.”


O fim da lógica centrada apenas na infraestrutura


A preocupação com infraestrutura tecnológica não desapareceu. Em muitas regiões do mundo, especialmente em países de renda média e baixa, a conectividade continua sendo um desafio relevante.


No entanto, a chegada da inteligência artificial generativa ampliou significativamente o alcance das tecnologias digitais dentro das instituições educacionais. Ferramentas de IA já são utilizadas para apoiar planejamento pedagógico, produção de conteúdo, personalização da aprendizagem, avaliação, monitoramento do desempenho estudantil e atividades administrativas.


Essa capacidade de atuar simultaneamente em múltiplas dimensões da educação faz com que o desafio deixe de ser exclusivamente tecnológico.


Relatório recente do Banco Mundial destaca que os maiores riscos associados à inteligência artificial na educação não decorrem apenas das ferramentas em si, mas da ausência de estruturas institucionais capazes de orientar sua implementação. O documento aponta que políticas públicas focadas exclusivamente na aquisição de tecnologia tendem a produzir resultados limitados quando não são acompanhadas por formação profissional, mecanismos de avaliação e governança.


Experiências acumuladas ao longo das últimas duas décadas reforçam essa conclusão. Diversos países investiram bilhões de dólares em programas de tecnologia educacional sem que os ganhos de aprendizagem acompanhassem proporcionalmente os investimentos realizados. As evidências sugerem que tecnologias semelhantes podem produzir resultados muito diferentes dependendo da qualidade da gestão, da formação dos profissionais envolvidos e da capacidade institucional para acompanhar sua implementação.


O Brasil já começou a experimentar a inteligência artificial na educação


Embora o debate sobre governança de IA ainda seja relativamente recente no país, a tecnologia já começa a chegar às redes de ensino, universidades e políticas públicas.


O Ministério da Educação incorporou a inteligência artificial às discussões da Estratégia Nacional de Educação Digital (ENED), enquanto universidades públicas ampliam pesquisas relacionadas à aprendizagem adaptativa, robótica educacional, análise de dados educacionais e uso pedagógico da IA.


Ao mesmo tempo, estados e municípios começam a testar plataformas capazes de apoiar professores, automatizar tarefas administrativas e personalizar atividades de aprendizagem.


Os avanços ocorrem em um cenário no qual a infraestrutura digital já apresenta avanços importantes. Segundo a pesquisa TIC Educação, realizada pelo Cetic.br, mais de 90% das escolas públicas urbanas brasileiras possuem acesso à internet.


O dado demonstra uma mudança relevante no debate nacional. Se nos anos anteriores a principal preocupação era conectar as escolas, o desafio atual passa a ser construir capacidades institucionais para utilizar as novas tecnologias de forma segura, eficiente e alinhada aos objetivos educacionais.


O que dizem os organismos internacionais


A preocupação com governança aparece de forma recorrente nos documentos publicados pelos principais organismos multilaterais. A UNESCO tem enfatizado a necessidade de mecanismos de transparência, proteção de dados, supervisão humana e desenvolvimento de competências para uso responsável da inteligência artificial.


A OCDE, por sua vez, vem deslocando gradualmente o debate da simples digitalização para a construção de capacidades institucionais. Seus estudos recentes destacam que sistemas educacionais precisarão desenvolver condições para supervisionar algoritmos, avaliar impactos, proteger direitos dos estudantes e produzir evidências sobre o uso da tecnologia.


Na Europa, a aprovação do AI Act acrescenta uma dimensão regulatória ao tema. Embora o marco legal tenha alcance mais amplo do que a educação, suas diretrizes influenciam diretamente aplicações relacionadas à avaliação automatizada, plataformas adaptativas e sistemas de monitoramento da aprendizagem.


A tendência observada internacionalmente é clara: quanto maior a presença da inteligência artificial nos processos educacionais, maior a necessidade de estruturas capazes de supervisionar seu funcionamento.


O gargalo da formação docente


Se existe um consenso emergente entre especialistas, ele passa pela formação dos profissionais da educação. A UNESCO considera a capacitação docente um dos pilares para qualquer estratégia de inteligência artificial aplicada à educação. No Brasil, entretanto, a velocidade de transformação tecnológica ainda supera a capacidade de atualização de muitos programas de formação inicial e continuada.


Para Gilberto Lacerda, a incorporação da IA não pode ser tratada apenas como aquisição de ferramentas.


“Nenhuma tecnologia educacional produz transformação por si só. O fator decisivo continua sendo a capacidade dos profissionais e das instituições de integrá-la ao processo pedagógico de forma crítica, planejada e orientada por evidências.”


Segundo o pesquisador, existe o risco de que escolas e redes de ensino adotem soluções sofisticadas sem que professores e gestores tenham recebido preparação adequada para utilizá-las, interpretar seus resultados ou compreender suas limitações.


A nova desigualdade


Especialistas argumentam que essa transformação pode produzir uma nova camada de desigualdade entre instituições. No passado, a principal diferença estava entre escolas conectadas e desconectadas. Agora, o risco é que a distância se estabeleça entre organizações capazes e incapazes de governar ambientes educacionais baseados em IA.


Instituições que conseguirem desenvolver competências técnicas, estruturas de governança, mecanismos de monitoramento e capacidade de avaliação tendem a capturar ganhos relacionados à personalização do ensino, melhoria da gestão e aumento da eficiência administrativa.


Já organizações que adotarem a tecnologia de forma fragmentada ou sem planejamento podem enfrentar problemas associados à dependência tecnológica,

desperdício de recursos, vieses algorítmicos e perda de capacidade decisória.


Para Gilberto Lacerda, a questão central já não é tecnológica. “A questão não é quem terá acesso à inteligência artificial, porque o acesso tende a se universalizar. A questão é quais instituições conseguirão transformar essa tecnologia em melhoria efetiva da aprendizagem, da gestão educacional e da qualidade das políticas públicas.”

O desafio dos próximos anos


A disseminação da inteligência artificial na educação parece irreversível. O debate internacional, contudo, está se afastando da pergunta sobre quem terá acesso à tecnologia e se aproximando de uma questão mais complexa: quem terá capacidade para governá-la.


A resposta pode determinar não apenas a velocidade de adoção da IA nos sistemas educacionais, mas também a qualidade dos resultados alcançados.


Se nas últimas décadas a desigualdade digital esteve associada à infraestrutura, a próxima etapa poderá ser marcada pela diferença entre instituições que desenvolveram capacidades de governança e aquelas que permaneceram dependentes de soluções tecnológicas sem capacidade própria de supervisão.


Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta educacional e passa a funcionar como um teste de maturidade institucional para governos, universidades e redes de ensino.

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