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Inteligência artificial no setor público avança sem governança e pressiona energia e água

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Expansão da IA em governos ocorre sem estrutura adequada de controle e já impacta orçamento, infraestrutura e sustentabilidade


A expansão da inteligência artificial conecta tecnologia, energia e água; e expõe novos riscos para o setor público.
A expansão da inteligência artificial conecta tecnologia, energia e água; e expõe novos riscos para o setor público.

A adoção de inteligência artificial no setor público tem avançado em ritmo acelerado nos últimos anos, impulsionada pela promessa de aumento de eficiência, automação de processos e melhoria na prestação de serviços. No entanto, esse movimento ocorre em um cenário de baixa maturidade institucional, no qual estruturas de governança, monitoramento e controle ainda não acompanham a velocidade da implementação.


Levantamentos recentes indicam que a maioria das organizações públicas já utiliza aplicações de inteligência artificial generativa em alguma escala. De acordo com estudo global citado pela Nutanix, cerca de 94% das agências governamentais já adotaram essas tecnologias, mesmo enfrentando limitações relacionadas à infraestrutura, segurança cibernética e qualificação técnica de servidores.


"Esse descompasso entre adoção tecnológica e capacidade institucional cria um ambiente de risco crescente. Sem mecanismos estruturados de supervisão, sistemas de IA passam a influenciar processos decisórios sem transparência adequada, ampliando a exposição a erros automatizados, vieses e questionamentos jurídicos", detalha o professor em Administração e Tecnologista, especialista em Inteligência Artificial, Leandro de Jesus.


Organismos internacionais vêm alertando para esse cenário. O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) recomenda que governos estabeleçam critérios claros de governança, capacitação e alinhamento estratégico antes de expandir o uso dessas tecnologias. Na mesma direção, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reforça a necessidade de incorporar práticas de due diligence ao longo de todo o ciclo de vida da IA, incluindo avaliação de riscos, monitoramento e mecanismos de responsabilização.


O impacto invisível da IA: consumo de energia e água


Além dos riscos institucionais, a expansão da inteligência artificial traz um efeito menos visível, mas igualmente relevante: o impacto físico sobre recursos energéticos e hídricos.

Ao contrário da percepção comum, sistemas de IA não são imateriais. Seu funcionamento depende de infraestrutura computacional intensiva, especialmente data centers, que demandam grandes volumes de energia elétrica e água para operação e resfriamento.


De acordo com análise do Massachusetts Institute of Technology (MIT), modelos avançados de inteligência artificial consomem quantidades significativas de eletricidade, e a expansão dessa demanda tende a pressionar redes energéticas e metas de descarbonização.


Esse consumo deve crescer de forma acelerada. Estimativas indicam que os data centers consumiram cerca de 460 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2022 e podem ultrapassar 1.050 TWh até 2026, impulsionados principalmente pela expansão da IA.


A dimensão hídrica também é relevante. Estudos discutidos em fóruns da OCDE e do IEEE apontam que sistemas de resfriamento podem consumir aproximadamente dois litros de água por quilowatt-hora, dependendo da tecnologia utilizada. Além disso, cerca de 70% do consumo de água associado à IA ocorre durante a fase operacional dos sistemas.


Pesquisas publicadas na revista Nature Sustainability indicam ainda que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial pode gerar emissões anuais de até 44 milhões de toneladas de CO₂ em determinados cenários, além de ampliar a pressão sobre recursos hídricos em regiões já vulneráveis.


Infraestrutura digital como novo risco estratégico


A combinação entre adoção acelerada e impacto físico reposiciona a inteligência artificial dentro da lógica de políticas públicas. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta digital e passa a operar como infraestrutura crítica, com implicações diretas sobre planejamento energético, gestão de recursos naturais e sustentabilidade fiscal.


Esse movimento já começa a ser refletido em marcos regulatórios internacionais. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) destaca a necessidade de monitoramento contínuo de sistemas de IA em operação, enquanto a União Europeia, por meio do AI Act, estabelece obrigações de transparência, supervisão humana e controle de risco para sistemas considerados de alto impacto.


Nesse contexto, a ausência de critérios técnicos e institucionais para adoção da IA pode gerar não apenas falhas operacionais, mas também custos ocultos relacionados ao consumo de energia, uso de água e necessidade de adaptação de infraestrutura.


Risco institucional e pressão da IA sobre o Estado


Para o setor público, o desafio é duplo. De um lado, a implementação de inteligência artificial sem governança estruturada aumenta a exposição a riscos jurídicos, operacionais e reputacionais. De outro, a falta de mensuração dos impactos físicos da tecnologia pode comprometer o planejamento orçamentário e a capacidade de cumprir metas ambientais.


A OCDE destaca que sistemas de IA devem ser desenvolvidos e implementados com base em princípios de responsabilidade, transparência e avaliação contínua de impacto. Sem essa base, decisões automatizadas podem comprometer direitos, gerar inconsistências administrativas e ampliar a insegurança jurídica. "Esse cenário indica uma mudança estrutural: a inteligência artificial deixa de ser uma agenda exclusivamente tecnológica e passa a integrar o núcleo da governança pública", explica Jesus, que também é especialista em Inteligência Artificial.


A convergência entre riscos institucionais e impactos físicos evidencia que a adoção da IA exige uma abordagem mais ampla, que integre tecnologia, regulação, planejamento e sustentabilidade.


Implementar inteligência artificial sem estruturas de governança e sem considerar seus efeitos sobre energia e água deixou de ser uma escolha neutra. Trata-se, cada vez mais, de uma decisão com implicações diretas sobre a eficiência do Estado, a estabilidade institucional e a gestão de recursos públicos. Leandro de Jesus, especialista em inteligência artificial

Serviço | Aprofundamento


Para apoiar a compreensão desse cenário, o projeto Radar Científico | IA & Setor Público lançou análises estratégicas voltadas à tradução de evidências científicas e regulatórias em implicações práticas para a administração pública.


Os materiais abordam temas como:

  • governança de inteligência artificial no setor público

  • riscos jurídicos e institucionais

  • impacto energético e hídrico da tecnologia

  • implicações para contratos, regulação e orçamento


O acesso às primeiras edições está disponível para profissionais e instituições interessadas.


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