Brasília articula museu de ciência no coração do poder
- 21 de mai.
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Encontro no SESI Lab mobiliza cientistas, comunicadores e instituições em torno da criação de um grande museu público dedicado ao Cerrado e à popularização da ciência
Negociações com a FAPDF já discutem recursos para o projeto arquitetônico do museu e um levantamento inédito sobre o cenário da ciência, tecnologia e inovação no Distrito Federal

Por trás do café servido no SESI Lab, em Brasília, havia algo maior sendo desenhado: uma articulação científica, política e cultural para tentar tirar do papel um projeto antigo, pouco conhecido pela população, mas potencialmente transformador para o país.
O encontro “Papo com Ciência e Café”, organizado pela SBPC-DF, reuniu pesquisadores, representantes da pós-graduação, gestores universitários, divulgadores científicos e integrantes do ecossistema de ciência, tecnologia e inovação do Distrito Federal para discutir a criação do Museu de Ciência e Tecnologia de Brasília; um equipamento público já previsto em decreto governamental e com terreno reservado em plena Esplanada dos Ministérios.
A mobilização já começa a avançar para etapas mais concretas. Segundo participantes do encontro, estão em andamento negociações junto à Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) para viabilizar recursos destinados à elaboração do projeto arquitetônico do museu e também para a realização de uma pesquisa sobre o estado da arte da ciência, tecnologia e inovação no DF. Caso avance, será uma das evoluções mais significativas dos últimos anos dentro da longa trajetória de tentativas de implementação do projeto.
Mas o debate rapidamente ultrapassou a ideia de construção de um prédio para uma discussão sobre desigualdade científica, acesso ao conhecimento, mobilidade urbana, desinformação, Cerrado e o papel da ciência na construção da própria identidade de Brasília.
“O Brasil é o único país da OCDE sem um grande museu público de ciência na capital”
A frase, dita durante a reunião, pairou como provocação política no ambiente. Enquanto cidades ao redor do mundo transformam museus científicos em centros estratégicos de educação, turismo, inovação e mobilização social, Brasília, capital de um país continental e potência ambiental, ainda não possui um museu público dedicado à ciência e tecnologia.
A proposta defendida pelos participantes é que isso mude e não com qualquer museu. A ideia discutida é criar um espaço diretamente ligado ao Cerrado, às mudanças climáticas, à biodiversidade, à comunicação pública da ciência e à produção científica local.
"Um museu pensado menos como vitrine estática e mais como laboratório vivo de ciência pública”, explicou Gilberto Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no Distrito Federal.
O Cerrado como identidade científica de Brasília
Ao longo do encontro, o Cerrado foi citado como tema ambiental, mas, principalmente, como símbolo político e identitário. Pesquisadores lembraram que o bioma continua sendo pouco compreendido pela população, apesar de sustentar parte significativa da biodiversidade e da segurança hídrica do país.
“A população olha para o Cerrado e muitas vezes não reconhece aquilo como biodiversidade. É só mato, vegetação”, comentou Julia Klakzco, diretora do Museu de Biologia da UnB.
A avaliação compartilhada pelos presentes é que o Brasil construiu uma narrativa nacional muito mais associada à Amazônia, deixando o Cerrado invisível, inclusive dentro da própria capital federal. Por isso, a proposta é que o museu transforme o bioma em eixo central da experiência científica.
Outro ponto debatido no encontro foi o relato sobre as dificuldades enfrentadas por estudantes das regiões periféricas do DF para visitar espaços científicos. "Hoje, escolas frequentemente cancelam visitas por falta de transporte. Ônibus não chegam. Rotas são longas. O acesso é limitado. E a consequência é que a ciência continua concentrada em determinados territórios da cidade", reforçou Klakzco.
Ainda nessa temática, a discussão abordou o conceito de Brasília como cidade educadora e ecossistema científico urbano. Aplicativos de mobilidade, integração entre ônibus e bicicletas, circuitos científicos pela cidade e redes de museus passaram a fazer parte da conversa. Na visão dos participantes, a popularização da ciência também é política de mobilidade urbana.
“A gente ainda precisa explicar que a Terra não é plana”
A frase arrancou risos, mas expôs o triste pano de fundo da realidade da sociedade atual. Os debates deixaram claro que a proposta do museu nasce em um contexto de desinformação, negacionismo científico, baixa alfabetização científica e crescente distanciamento entre produção científica e população. Nesse cenário, museus deixam de ser vistos apenas como equipamentos culturais e passam a ser entendidos como ferramentas de formação cidadã, espaços de letramento científico e estruturas permanentes de combate à desinformação.
Um museu sem paredes na UnB
Entre os relatos apresentados, chamou atenção o Museu de Biologia da UnB, criado recentemente, que já recebeu mais de 10 mil estudantes mesmo funcionando com estrutura limitada e sem equipe permanente.
O espaço funciona a céu aberto, em um jardim do Instituto de Biologia, e aposta em experiências interativas, perguntas abertas e contato direto com o público. Tudo operado principalmente por estudantes.
O dado mais impressionante é que mesmo com enormes dificuldades de acesso e transporte, a procura continua crescendo. Para os participantes do encontro, isso revela que existe demanda reprimida por ciência no Distrito Federal.
Foco na mobilização
Uma das estratégias debatidas foi transformar o apoio ao museu em cartas públicas, moções, documentos institucionais e manifestações formais de entidades científicas. Segundo os organizadores, movimentos semelhantes já provocaram respostas concretas de órgãos públicos no passado.
Os encontros promovidos pela SBPC-DF sobre o Museu de Ciência e Tecnologia de Brasília devem continuar nos próximos meses e são abertos ao público interessado em participar da construção da proposta.
Mais do que construir um prédio, o grupo parece tentar responder a uma pergunta maior: Brasília quer continuar sendo apenas a capital política do país ou pretende se tornar também a capital da ciência pública brasileira? Se depender da movimentação iniciada no SESI Lab, o final será feliz para a ciência pública.
Quem participou
Entre os participantes identificados na reunião estavam representantes de instituições como Universidade de Brasília (UnB); Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI), SBPC, ANPG, CNPq, SESI Lab, Museu de Biologia da UnB, Rede Ciência e Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. Também participaram nomes ligados à divulgação científica, extensão universitária, gestão de ciência e movimentos de pós-graduação.
A Cientificar continuará acompanhando de perto e trazendo todas as novidades sobre a luta para erguer a Museu Público de Ciência e Tecnologia do DF. Participe e acompanhe conosco essa caminhada!








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