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Brasília seria a única capital da OCDE sem museu público de ciência e tecnologia

  • há 24 horas
  • 5 min de leitura

Levantamento de pesquisadores aponta que a capital brasileira é a única entre as capitais dos 38 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que não possui um museu público dedicado à ciência e tecnologia. O contraste chama atenção porque o Brasil é candidato à adesão e já atua como parceiro estratégico da organização em áreas como ciência, inovação, educação e desenvolvimento


Criança utilizando uma grande tela interativa em formato de smartphone dentro do SESI Lab, em Brasília. A instalação digital exibe aplicativos e conteúdos educativos relacionados à tecnologia, enquanto o visitante interage com a exposição.
Uma criança interage com uma instalação digital no SESI Lab, em Brasília. Espaços de ciência e tecnologia despertam a curiosidade, estimulam o pensamento crítico e aproximam o conhecimento científico do cotidiano da população — um dos argumentos centrais dos defensores da criação de um museu público de ciência e tecnologia na capital federal.

Brasília abriga ministérios, universidades, agências de fomento, centros de pesquisa e parte significativa da estrutura responsável pelas políticas nacionais de ciência, tecnologia e inovação. Ainda assim, um levantamento realizado por pesquisadores e articuladores do projeto do Museu de Ciência e Tecnologia de Brasília indica que a capital federal seria a única entre as capitais dos 38 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que não possui um museu público dedicado à ciência e tecnologia.


A constatação chama atenção por envolver justamente uma das cidades que concentram os principais órgãos responsáveis pela produção, financiamento e formulação de políticas científicas do país. Embora o Brasil ainda não seja membro efetivo da OCDE, o país participa como parceiro estratégico da organização e integra o grupo de candidatos à adesão. A própria OCDE mantém áreas específicas dedicadas à ciência, tecnologia, inovação, educação, inteligência artificial, desenvolvimento sustentável e transformação digital, temas que figuram entre os principais desafios contemporâneos das sociedades modernas.


A ausência de um museu público de ciência em Brasília não significa falta de produção científica. Pelo contrário. A cidade abriga instituições como a Universidade de Brasília (UnB), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), entre outros, além dos ministérios responsáveis pelas políticas públicas de ciência, tecnologia, educação e inovação. O que não existe é um espaço público estruturado e permanente capaz de conectar esse universo à população de forma sistemática.


INTERESSE PÚBLICO - A demanda por esse tipo de equipamento encontra respaldo em dados nacionais. A pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil 2023, realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mostra que 60,3% dos brasileiros declaram ter interesse por temas ligados à ciência e tecnologia. Apesar disso, apenas 11,5% afirmaram ter visitado um museu ou centro de ciência nos doze meses anteriores ao levantamento.


O estudo também revela um dado significativo para a discussão sobre infraestrutura científica: entre aqueles que não frequentaram museus de ciência, quase 30% apontaram a inexistência desses espaços em sua região como principal motivo.


Para especialistas, museus científicos desempenham papel cada vez mais relevante na aproximação entre conhecimento e sociedade. Mais do que espaços expositivos, eles funcionam como ambientes de educação não formal, letramento científico, formação cidadã e divulgação de temas complexos para públicos diversos.


“Museus de ciência ajudam a transformar conhecimento especializado em experiências acessíveis ao público. São espaços fundamentais para ampliar o diálogo entre ciência e sociedade”, afirma Luisa Massarani, coordenadora do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) e uma das principais referências brasileiras na área.


FEBRE DE MUSEUS - Enquanto Brasília permanece sem um equipamento desse porte, outras capitais consolidaram seus museus científicos como instrumentos permanentes de educação, cultura e inovação. Londres abriga o Science Museum, um dos mais visitados do Reino Unido. Paris mantém a Cité des Sciences et de l’Industrie, considerada uma das maiores instituições de divulgação científica da Europa. Washington concentra parte do complexo Smithsonian, referência mundial em educação científica. Tóquio abriga o Miraikan, museu nacional voltado às ciências emergentes e à inovação tecnológica.


Nas últimas décadas, esses espaços deixaram de ser vistos apenas como equipamentos culturais. Em diversos países passaram a integrar estratégias públicas voltadas ao desenvolvimento científico, à educação, ao turismo e à formação de cidadãos capazes de compreender temas cada vez mais presentes no cotidiano, como mudanças climáticas, inteligência artificial, biotecnologia e saúde pública.


Brasília possui iniciativas importantes de divulgação científica. O SESI Lab, inaugurado em 2022, tornou-se referência nacional ao integrar arte, ciência, tecnologia e educação em um mesmo espaço. O Planetário de Brasília ampliou sua programação nos últimos anos. A Universidade de Brasília também mantém museus e projetos de extensão voltados à popularização da ciência. Pesquisadores, porém, destacam que essas iniciativas possuem objetivos específicos e não substituem um museu público estruturante dedicado exclusivamente à ciência e tecnologia.


SONHO DE MUSEU - O projeto do Museu de Ciência e Tecnologia de Brasília existe formalmente há mais de uma década. Em 2013, um decreto do Governo do Distrito Federal criou oficialmente a instituição. Em 2015, sua estrutura foi regulamentada e vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do DF. Desde então, diferentes propostas de localização foram discutidas, incluindo áreas próximas ao Planetário de Brasília, à Funarte e ao Eixo Monumental. Apesar dos avanços administrativos, o projeto nunca chegou à fase de implantação.


Nos últimos meses, o tema voltou à pauta. Pesquisadores, gestores, representantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Universidade de Brasília e de outras instituições científicas retomaram as articulações para viabilizar a iniciativa. Entre as ações em discussão estão a elaboração do projeto arquitetônico do museu e a realização de um diagnóstico sobre o estado da arte da ciência, tecnologia e inovação no Distrito Federal.


Há também uma proposta que vem ganhando consenso entre os participantes das discussões: transformar o Cerrado no eixo temático central do futuro museu. A ideia é criar um espaço capaz de integrar ciência, biodiversidade, mudanças climáticas, recursos hídricos, tecnologia e sustentabilidade a partir da realidade do bioma onde Brasília está inserida.


Para o professor Gilberto Lacerda, da Universidade de Brasília, a proposta pode ajudar a construir uma identidade própria para o equipamento. “Brasília tem a oportunidade de criar um museu conectado ao Cerrado, um bioma estratégico para o Brasil e para o mundo, mas ainda pouco compreendido pela maior parte da população”, afirma.



Para os defensores da iniciativa, os números demonstram que existe público interessado em experiências científicas e educativas. O desafio é transformar esse interesse em uma política pública permanente. Se o levantamento dos pesquisadores estiver correto, a capital brasileira permanece ocupando uma posição singular entre as capitais dos países da OCDE: a de ainda não possuir um museu público dedicado à ciência e tecnologia. A questão agora é saber por quanto tempo essa exceção continuará existindo.


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