Comunicar ciência para quem? O erro que compromete a ciência no Brasil
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A ciência brasileira produz conhecimento de alto nível. Publica em revistas internacionais, desenvolve tecnologias estratégicas e forma pesquisadores qualificados. O problema não está na qualidade do que se descobre. Está na forma como isso chega, ou não, à sociedade.
Há uma pergunta que raramente é feita com a franqueza necessária: comunicar ciência para quem?
A resposta não começa em um laboratório, mas em um campo.
Uma parábola sobre comunicar ciência
Era uma vez três homens que compraram terras férteis e decidiram plantar. A paisagem era promissora e o solo parecia generoso. Mas cada um enxergava aquele chão de maneira diferente.
João fez o que sempre viu fazer. Escolheu feijão porque era tradição, porque era familiar, porque parecia naturalmente certo. Não analisou o terreno, não perguntou sobre o clima, não estudou o mercado. Plantou com convicção.
Valentim preferiu olhar os preços. Descobriu que a batata estava valorizada e apostou nela. Se havia demanda, pensou, o resto se resolveria. Ajustaria o solo, adaptaria a terra, compensaria no esforço.
Gabriel agiu de outro modo. Caminhou pelo terreno, examinou a terra, perguntou sobre as chuvas, analisou custos, investigou o mercado, ponderou riscos. Só então decidiu o que plantar.
A colheita revelou o que antes parecia invisível. João produziu pouco. O solo não reagiu bem à sua escolha automática. Valentim colheu algo, mas gastou tanto tentando adaptar a terra ao cultivo que quase não obteve retorno. Gabriel prosperou. Não por sorte, mas porque compreendeu o ambiente antes de agir.
Essa história não é sobre agricultura. É sobre como as pessoas recebem informação científica.
O erro silencioso para comunicar ciência
Na vida real, a maioria do público não age como Gabriel. Grande parte interpreta o mundo a partir do que sempre ouviu, como João. Outra parcela filtra tudo pelo interesse imediato, como Valentim. São poucos os que investigam contexto, cruzam variáveis e analisam evidências antes de formar opinião.
E, ainda assim, a ciência costuma comunicar como se estivesse falando exclusivamente com Gabriel.
Relatórios densos, textos técnicos, gráficos sofisticados, linguagem especializada. Comunica-se como se o receptor dominasse o mesmo repertório conceitual de quem produz o conhecimento. Fala-se para quem já entende. Presume-se um leitor ideal que raramente corresponde à realidade.
O resultado é previsível. Parte do público não compreende. Outra parte compreende parcialmente. Alguns rejeitam o que não conseguem decifrar. E, no espaço deixado pela complexidade mal traduzida, a desinformação prospera com narrativas simples, emocionais e acessíveis.
Não se trata de falta de inteligência das pessoas. Tampouco de irrelevância da ciência. O problema está na suposição equivocada sobre quem está do outro lado.
A crise dos modelos de comunicação pública da ciência
Há uma crise nos modelos teóricos de comunicação pública da ciência. Durante décadas acreditou-se que bastava transmitir informação correta para que a compreensão surgisse automaticamente. Ao mesmo tempo, os processos de comunicação da complexidade foram descritos de forma superficial, como se traduzir conhecimento técnico para diferentes públicos fosse tarefa intuitiva e não objeto de investigação rigorosa.
É nesse cenário que a Comunicação Pública de Conteúdos Complexos se apresenta como alternativa estruturada e estratégica.
CPCC: comunicar complexidade com método
A CPCC parte de um princípio simples e desconfortável: comunicar ciência exige compreender profundamente quem recebe a mensagem.
Não basta organizar dados. É preciso considerar contexto social, repertório cultural, linguagem, emoções, interesses e limites cognitivos. Não se trata de simplificar até empobrecer, nem de preservar a complexidade como barreira de acesso. Trata-se de estruturar a mensagem para que ela faça sentido fora do ambiente especializado.
Comunicar conteúdos complexos é reconhecer que o terreno não é homogêneo. É abandonar a ilusão do público ideal e assumir a responsabilidade de dialogar também com quem pensa como João ou como Valentim.
Se a ciência deseja impacto social, políticas públicas baseadas em evidências e decisões informadas, precisa ajustar sua forma de plantar ideias. Não basta produzir conhecimento. É preciso garantir que ele encontre solo fértil na compreensão coletiva.
No fim, a pergunta permanece, incômoda e inevitável: se sabemos que a maioria das pessoas não analisa o mundo como um pesquisador, por que insistimos em comunicar como se analisassem?
Talvez o maior erro da comunicação científica brasileira não esteja no que diz, mas em para quem acredita estar falando. E talvez o futuro da relação entre ciência e sociedade dependa justamente da coragem de responder, com método e estratégia, a essa pergunta essencial.
Comunicar ciência para quem?
Essa é a questão que pode comprometer ou transformar
o destino da própria ciência no Brasil.
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André Kauric de Campos é jornalista científico e coordenador do projeto Comunicar Ciência. Atua na ponte entre conhecimento e sociedade, transformando temas complexos em conteúdos que informam, provocam e inspiram decisões mais conscientes.



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